Autora e Blog

Meu nome é Thaís, tenho 26 anos e nasci no Rio de Janeiro. Escrevo roteiros para filmes e series 'imaginarias' desde que me conheço por gente. Fiz 3 anos de teatro amador porque era a minha chance de saber como funcionava essa história de dramaturgia, lá tive oportunidade de participar de 3 peças, diversas esquetes e de escrever minha própria peça. Isso é mais que um hobby, é minha paixão. Não acredito que sou boa escritora, mas estou tentando criar um espaço para guardar as milhares de ideias que explodem na minha cabeça. Seja bem vindo e deixe seu feedback! Para ler mais contos, visite: »

A CIDADE CINZA

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetuer adipiscing elit Featured Work

Redes Sociais

RSS Feed Twitter Facebook

Notícias Via Email

Capitulo 1: LEPTIRICA

sábado, 28 de junho de 2014



O sol que invadia as frestas da cortina não a acordaram. O corpo jovem, esguio e semi-nu continuava a se remexer na cama. Definitivamente ela estava no meio de um pesadelo. Chamou pelo pai uma ou duas vezes. Chorou. Vinte anos se passaram e ela não conseguia apagar a maior tragédia da sua vida, aquela que marcou tanto a sua infância como definiu seu caráter e seu destino. Ela queria despertar, ela tentava acordar e escapar daquela noite sem fim, não encontrando forças em sua vontade. Sua sorte era o relógio programado diariamente para acorda-la as cinco horas da manhã. 



Cinco horas da manhã era um dos poucos horários do dia em que ela e o namorado conseguiam conversar separados por quatro horas de um fuso horário que ligava o Brasil à Nigéria. Ela vestindo apenas a roupa intima rastejou entre os lençóis bagunçados, tirando da face os fios de cabelo desalinhados que grudavam em sua testa por conta do suor da pele. Sentou-se a frente da mesa em que estava seu notebook, e a distância era mínima contando que a jovem habitava um pequeno apartamento conhecido pelo nome 'kitnet'. 

Assim que ela ligou o aparelho, Miguel estava a sua espera. Já vestido como o bom pediatra que era trabalhando no projeto Médicos Sem Fronteiras no pequeno vilarejo de Bagega. O sorriso claro naquela pele negra combinado aos olhos gentis que ele possuía a faziam esquecer de qualquer pesadelo que tivesse aterrorizado sua noite.

- Bom dia. Aconteceu alguma coisa? - Ele indagou sem pensar duas vezes e ela suspirou incrédula com a percepção aguçada do namorado. Não estava em seus planos contar à ele que pela milésima noite seguida ela sonhará com o dia em que o pai foi assassinado. Não havia necessidade em deixar ninguém preocupado com aquilo, mas ele já sabia. Estava na cara que ele já sabia. - Pesadelos de novo? Aqueles...? Com o seu pai? 

Ela tentou não responder, mas o aceno ligeiro revelou seu segredo. Era o bastante. Não precisariam entrar em detalhes e para certificar-se disso ela apressou-se em mudar de assunto: - Como vão as coisas ai? Quantas vidas você já salvou? - Ela brincou. Era a sua maneira de dizer que não estava pronta para conversar sobre o passado.

Passaram cerca de duas horas naquela conversa nada profunda sobre coisas do dia a dia, sobre planos para o futuro, sobre o retorno de Miguel ao Brasil, entre risadas e saudade. Mas chegava a hora de Olivia partir para o seu trabalho. Arrumou-se de maneira simples como era o seu costume.  Jeans, camiseta, o coturno confortável, o cabelo preso facilitava o seu trabalho. De bolsa a tiracolo ela desceu os cincos andares de escada, só porque não possuía paciência para aguardar um elevador por tanto tempo. Problemas de prédio antigo que há anos não recebia uma restauração. Mais cinco minutos de caminhada e lá estava a estação de metro, movimentada como sempre, barulhenta como sempre. "Afinal, está é a maior cidade do Brasil", dizia a si mesmo.

Enquanto o transporte publico lotado a levava para seu destino, ela tranquilizava-se ao som de uma velha canção. Os fones de ouvido lhe afastavam dos pensamentos e os olhos percorriam os diversos rostos que lhe acompanhavam naquela viagem. Todos pareciam preocupados com a própria vida, com os próprios problemas, sem reparar em ninguém mais além de si, exceto aquela senhora sorridente. Uma senhora sentada logo a sua frente, com os olhos brilhantes, o sorriso secreto que dividia só com Olivia que por sua vez tentou não incentiva-la, mas entregou-se ao sorriso também, envolvida naquela conversa silenciosa. Uma pena que logo teve de deixa-la e seguir seu próprio caminho até a delegacia. 

Sua caminhada da estação Luz, onde desceu, até o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa não demorou mais do que três minutos e assim que ela entrou no andar dedicado aos investigadores foi recebida por um colega de trabalho. O homem de cabelos negros cortados à moda da época e de olhos orientais aproximou-se dela com algumas dezenas de pastas nas mãos: - Você tá atrasada, cara. - O que Takahashi atestou não era nenhuma novidade, ainda assim foi reafirmada pelo Delegado Teixeira que fez questão de gritar da porta de sua sala  "Você está atrasada, Galvão!". Sabendo que aquilo era mais que uma repreenda, era também uma convocação, ela dirigiu-se para a sala dele sem explicar-se ao colega investigador.

- Feche a porta, por favor. - Disse o grande homem de pele negra e cabelos brancos. Sua voz grave e sua pose sisuda duraram até que a porta fosse fechada, dando lugar ao tom preocupado de um padrinho que questionava a afilhada: - Sente-se, o que houve com você, Olivia?

- Nada... Nada. - Ela negou duplamente, uma para convence-lo e outra para convencer a si mesma. 

- Nós estamos preocupados com você.

- "Nós"? - Já sabia a resposta, mas fez questão de perguntar naquele tom de provocação que lembrava sua adolescência. O que não o surpreendeu.

- Sua mãe. Você sabe. Ela liga todo o santo dia pedindo notícias suas, tentando marcar alguma coisa e você... Você não dá uma chance para que ela faça parte da sua vida, menina. - O cansaço tomou conta da voz dele, já que está não era a primeira vez que fazia esse discurso à afilhada que finalmente atendeu seus os esforços e cansou de contraria-lo para a surpresa do velho policial.

- Tudo bem, padrinho. Eu vou ligar para a minha mãe.

- E? - Havia uma porta aberta ali e ele não deixaria escapar a oportunidade, a pressionando um pouco mais.

- E? Ok... E vou marcar alguma coisa com ela. Um jantar está bom para o senhor?

- Está muito bom. - As palavras dela o confortaram, mas não lhe afastaram da cabeça o próximo assunto que o preocupava muito mais. - Então... - Procurou as palavras certas sem muita sorte. Era mais fácil agir naturalmente, como um velho policial devia fazer.  - Tenho um caso para você. O corpo de um homem encontrado em um carro de luxo na Rua Içana. - Anotou o endereço com detalhes em um pequeno pedaço de papel, deixando-o disponível. - Vá para lá e leve o Takahashi com você. 

Sim, senhor. - O tom beirava a brincadeira, apesar do trabalho ser a unica coisa que ela realmente levava a serio. Saiu da sala com o papel em mãos e dirigiu-se ao habitual parceiro Felipe Takahashi. - Vamos, Felipe, temos trabalho a fazer. - Ele não pensou duas vezes e a seguiu como era de costume. 

Olivia era a primeira da turma de investigadores, a que possuía as notas mais altas quando estudante, e ainda destaca-se como profissional, resolvendo um caso atrás do outro com extrema perfeição. Diante disso, Felipe acreditava que a dedicação dela era inspiradora, mantendo-se junto, fazendo questão de trabalhar sempre com a "mais jovem e mais bem preparada investigadora", como todos gostavam de se referir à ela com carinho ou com inveja.

A dupla seguiu em um carro oficial para o local do crime. Olivia não gostava de dirigir no transito caótico daquela megalópole, sentando-se no banco do carona e avaliando as poucas informações que possuíam sobre o caso em uma especie de ipad. - Decepcionante. - Declarou pouco antes de desligar o aparelho. Isso normalmente significava que nenhuma das informações ali encontradas era de grande validade. E quem era Takahashi para discordar da melhor? 

Sem muita demora eles estacionaram do lado oposto a cena do crime. No local dois policiais militares faziam a segurança e aguardavam pela chegada do rabecão, uma perita criminal acompanhada de um fotografo pericial analisavam o carro de luxo na cor preta, provavelmente o modelo mais moderno de BMW que o dinheiro poderia pagar, e dentro do veículo estava a vítima. Homem branco, cabelos negros com alguns fios grisalhos despontando aleatoriamente, olhos fechados, idade entre 40 à 45 anos, terno de alfaiataria, algumas poucas jóias, entre elas uma medalha esférica mostrando a gravação de uma mariposa a frente e atrás a palavra que surgia era "leptirica". Porém, o que mais chamava atenção era o perfume de grife que aos poucos perdia espaço para o cheiro de morte.

Todas as portas do carro estavam abertas deixando espaço para a movimentação dos peritos, e agora para a observação dos dois investigadores. Não era a primeira vez que Olivia encarava um corpo sem vida, mas foi a primeira vez que a visão lhe causou arrepio na espinha. Estranho, mas ignorável. Estava ali para resolver mais um caso e não para ter reações dignas de uma novata.

- Já sabe como ele morreu? - A detetive questionou com a atenção de uma profissional.

- Não. - A aparente resposta monossilábica indicava a obviedade daquela questão para a mal humorada perita. - Tem um ferimento no peito, bem no coração. Parece ter sido feito por alguma especie de projetil especial que se estilhaçou, como...

- Como uma bala dundum? - Interrompeu o curioso Takahashi. Provocando um sorriso na perita e um revirar de olhos de sua colega de trabalho.

- Isso mesmo, investigador. Ou talvez uma bala FMJ. - Completou a perita, agora interessada na conversa com o rapaz, sendo capaz até de um sorriso tímido no canto dos lábios.

- Ok, ok. Projeteis expansivos e que se fragmentam. - Olivia buscou a atenção de ambos. - E documentação? Já sabem o nome da vitima? 

- Não encontramos nenhum documento. - A perita se afastou bruscamente, anotando o que podia em seu ipad, que como o de Olivia, também exibia o simbolo da Polícia Civil da cidade. A atenção da perita era dada principalmente ao policial oriental, por quem ela demostrava certo interesse. - Mas a placa do carro já foi identificada.

- E a quem pertence o carrão? - Ele disse com todo o charme que podia tirar da sua voz de menino, o que por algum motivo estava facilitando a investigação.

E a perita respondeu com todo o charme que possuía em seus cabelos alaranjados amarrados em coque e os seus óculos de armação vermelha. - O carrão pertence a Corporação Edimmu. - Uma piscadela e completou com os olhos seguramente encarando-o. - Ligo para você  se descobrir algo novo... Meu nome é Sara, tá?

Coadjuvante nesta cena, Olivia permitiu-se rir antes de empurrar o colega em direção ao carro. - Vamos, garanhão. 

Outra vez dentro do veiculo oficial, Takahashi dirigia por entre as ruas cheias de carros e Olivia pesquisava sobre a tal empresa em seu ipad. A internet era um oceano de informações sobre uma das maiores empresas da America Latina, dirigida a anos pela família Solíz, responsável por grandes obras publicas, produção e exportação de produtos made in Brazil, e muitos contratos com o governo da cidade. Com todo esse poder, os investigadores precisavam agir com cautela, sem acusações precipitadas e sem chamar atenção para a investigação.

O transito era pesado e lhes custou uma hora inteira para chegar a sede da Corporação Edimmu e mais dez minutos para conseguir estacionar. Por fora o edifício-sede era uma joia tradicional no centro da cidade, mas por dentro ele cheirava a futuro. Da maneira como as pessoas se vestiam até as novidades tecnológicas que facilitavam a vida de empregados e visitantes, tudo lembrava uma ficção cientifica hollywoodiana e impressionava os dois policiais. Tanto os impressionou que por alguns segundos eles esqueceram da investigação para observar as pequenas maquinas na cor branca e seus roteiros tecnicamente ensaiados: "Bom dia. Posso lhe ajuda?". Mas foi um funcionário de carne e o osso que lhes despertou do transe com sua voz aveludada. 

- Bem vindos a Edimmu Corporation. - Brasileiro, ele abusou da imitação de sotaque americano para declarar o nome da empresa. - Posso ajuda-los?

- Gostaríamos de falar com a chefia. Um gerente, talvez. - Apressou-se Takahashi.

- Qual seria o assunto? - A curiosidade mostrou-se presente na face do rapaz. E até ele notou, tentando retomar a postura profissional, ainda que gentil.- Quer dizer... Preciso encaminha-los para o setor correto, não é?

Qual o seu nome? É Rodrigo mesmo? - Olivia apenas confirmou, uma vez que havia lido o nome no crachá do belo e moderno uniforme do funcionário. - Nós estamos procurando por esse senhor aqui... - Retirou do bolso o ipad e mostrou a ele uma foto do falecido. Apesar da imagem mostra-lo morto era um rosto de fácil identificação. Ainda assim o recepcionista se assustou e por um pequeno fone de ouvido na lapela do uniforme sussurrou, convocando alguém que poderia ajuda-los.

Mais rápido do que eles poderiam esperar o recepcionista não mais estava ali, sendo substituído por um homem alto e pálido como a neve que prontamente os atendeu. - Prazer, meu nome é Tadeu. Sigam-me, por favor.  - O trio atravessou o saguão e adentrou o elevador sem trocar uma palavra. Era normal que grandes empresas escolhessem ter aquele tipo de conversa em um local mais reservado, por isso os policiais não desconfiaram quando foram convidados a entrar em uma sala decorada por uma mesa de escritório feita de madeira, cercada por três cadeiras e a frente de uma parede forrada de centenas de pequenas portinhas que formavam cofres, cada um com uma fechadura e cadeado de formato único. O homem sentou em sua cadeira atrás da mesa e com um aceno os convidou a acomodarem-se nas cadeiras restantes para que iniciassem a conversa.

- Pois bem. Soube que vocês são mensageiros da tragédia, correto? - Não parecia triste ou surpreso, mas esforçava-se para mostrar que se importava e os detetives notaram.

- Infelizmente, sim. - O ipad foi retirado do bolso uma vez mais, e colocado a frente de Tadeu pelas mãos de Olivia. - Você o conhecia? Ele era funcionário daqui?

- Funcionário? Não, de maneira alguma. O senhor Nikolic era uma especie de associado de uma das empresas que compõe a Corporação Edimmu. - Tadeu começou a explicar, já retirando de uma das pequenas portas as poucas informações que possuía sobre Sava Nikolic, entregando-as aos policiais. Pouco também foi o que ele acrescentou a investigação. Respostas vazias à todas as perguntas e duvidas apresentadas. Ao que parecia, ninguém queria ou podia falar do tipo de trabalho que o imigrante da Sérvia fazia no Brasil, e isto alimentou a curiosidade dos detetives sobre o caso.

Após o fim da conversa, e levando consigo cópias de documentos que lhes foram entregues, eles retornaram ao elevador dispensando a presença de Tadeu. "Podemos encontrar a saída. Não se preocupe.", disse o educado Felipe. Dentro do elevador, eles se permitiram conversar mais abertamente sobre o caso e expor suas desconfianças. Quem afinal era Sava Nikolic? Não houve tempo para especulação. A porta do moderno elevador se abriu e o espaço foi invadido por cinco falantes secretárias uniformizadas da maneira tipica dos funcionários do prédio e cercando um único homem. De longe notava-se que interesse delas não era só profissional. Elas estavam encantadas com aquela presença masculina. 

Não havia homem mais bem vestido naquele saguão. E nem mais bonito ou mais atlético. Sua pele extremamente pálida contrastando com seus cabelos negros em um penteado que só não era mais perfeito que seus olhos de profundo azul. Tão exótico como charmoso, sabia do poder que exercia sobre outros seres humanos, deixando no ar aquela piscadela que podia ser para qualquer mulher ali presente, mas foi para Olivia. Com certeza foi para Olivia. Tanta era certeza que como poucas vezes na vida a investigadora mostrou-se desconcertada até que a porta do elevador voltou a se fechar, trazendo de volta o mundo que havia parado por alguns segundos. "Foi como acordar de uma sessão de hipnose", pensou. 

- Quem é esse ai? - Indagou Felipe que até o momento havia observado em silêncio a mudança da atmosfera e o arrebatamento de mulheres e homens atordoados pela presença de um único individuo.

Olivia, dividindo a mesma duvida do colega, agarrou pelo braço o primeiro funcionário que encontrou. Por acaso, este era o recepcionista Rodrigo que como todos os outros mostrava aquela expressão de encantamento. - Rodrigo! Quem era aquele cara?

Surpreso não pela pergunta que lhe foi feita, mas sim por Olivia não saber de quem se tratava, ele respondeu com um leve desdém. - Aquele, querida, é Martin Soliz, o solteiro mais cobiçado dessa cidade, desse país, desse planeta! O dono de tudo isso aqui, inclusive de mim... Como funcionário, é claro. - Retratou-se pelas aparências.

O nome não fez muita diferença para os dois policiais, mas aquela figura não sairia da cabeça de ambos por um bom tempo. Isso eles podiam apostar.

-------------------------------------------------------------------------------

Leptirica significa 'mariposa' na língua servia. 

0 comentários:

Postar um comentário